
Placa para bruxismo trata o zumbido?
Dra Elaine Miwa Watanabe é médica especialista em otorrinolaringologia pesquisadora em zumbido no ouvido
O zumbido no ouvido pode ter diversas causas. Embora muitas pessoas associem esse sintoma apenas à perda auditiva, essa não é a única explicação. Em muitos pacientes, especialmente aqueles com audiometria normal, o zumbido pode estar relacionado a alterações da musculatura da face, da mordida ou da articulação temporomandibular (ATM). Nesses casos, surge uma dúvida muito comum: a placa de bruxismo e zumbido têm relação? Afinal, usar uma placa para bruxismo pode realmente ajudar a reduzir o chiado no ouvido?
A resposta é: sim, em alguns casos a placa de bruxismo pode contribuir para a melhora do zumbido, principalmente quando o sintoma está relacionado ao bruxismo ou à disfunção temporomandibular (DTM). Entretanto, esse benefício depende de um diagnóstico preciso, pois o zumbido possui diversas causas e nem todas respondem ao mesmo tratamento.
Neste artigo você entenderá quando existe relação entre placa de bruxismo e zumbido, por que isso acontece, quais pacientes costumam melhorar e quando é necessário investigar outras causas.
O que é zumbido no ouvido?
O zumbido é a percepção de um som que não está presente no ambiente. Esse som pode ser percebido como:
Índice
Toggle- chiado;
- apito;
- cigarra;
- motor;
- panela de pressão;
- pulsação;
- sopro.
Embora muitas pessoas pensem que o zumbido seja uma doença, na realidade ele é um sintoma. Ou seja, ele pode estar relacionado a diferentes alterações do organismo.
Além disso, nem todo zumbido tem origem na audição. Em diversos pacientes, especialmente aqueles com audiometria normal, a origem pode estar em estruturas musculares, articulares ou cervicais.
O que é a ATM?
A ATM é a sigla para articulação temporomandibular, responsável por ligar a mandíbula ao crânio.
Essa articulação participa de praticamente todos os movimentos da boca, incluindo:
- mastigação;
- fala;
- bocejo;
- abertura e fechamento da boca.
Além disso, a ATM trabalha em conjunto com músculos faciais, ligamentos e dentes. Portanto, qualquer alteração nesse sistema pode gerar sintomas que vão muito além da dor na mandíbula.
O que é a disfunção temporomandibular (DTM)?
A disfunção temporomandibular (DTM) corresponde a um grupo de doenças que acometem tanto a ATM quanto toda a musculatura envolvida na mastigação.
Consequentemente, o paciente pode apresentar sintomas bastante variados, que nem sempre parecem estar relacionados à mandíbula.
Entre eles estão:
- dor na face;
- dor próxima ao ouvido;
- estalos na ATM;
- dificuldade para abrir a boca;
- dor ao mastigar;
- sensação de ouvido tampado;
- cefaleia;
- tensão muscular;
- zumbido.
Segundo estudos científicos, a DTM acomete aproximadamente 6% a 15% das mulheres e 3% a 10% dos homens, sendo mais frequente entre adultos jovens e de meia-idade.
O que é bruxismo?
O bruxismo é caracterizado pelo apertamento ou ranger dos dentes, podendo ocorrer durante o sono ou enquanto a pessoa está acordada.
Embora muitas pessoas associem o bruxismo apenas ao desgaste dentário, ele também pode provocar:
- sobrecarga muscular;
- fadiga da musculatura mastigatória;
- dor facial;
- dores de cabeça;
- tensão na ATM.
Além disso, em alguns pacientes, o bruxismo também pode contribuir para o aparecimento ou agravamento do zumbido.
Como o bruxismo e a DTM podem causar zumbido?
Nem todo zumbido é provocado por problemas na orelha.
Na verdade, existe um tipo chamado zumbido somatossensorial, no qual a origem está em alterações musculares, articulares vindo de regiões próximas ao ouvido como dentes, pescoço ou ombros.
Isso ocorre porque as informações nervosas provenientes da mandíbula, dos músculos da mastigação, da face, do pescoço e da orelha são centralizadas para regiões comuns do sistema nervoso central.
Assim, quando existe uma alteração importante nesses tecidos, essas informações podem ser interpretadas de forma “distorcida” pelo cérebro, levando à percepção do zumbido.
Em outras palavras, o cérebro pode interpretar uma alteração muscular como se fosse um som.
Como entender essa relação?
Uma comparação simples ajuda a compreender esse mecanismo.
Antes de um infarto, por exemplo, algumas pessoas não apresentam dor no peito. Em vez disso, é muito comum o relato de sentirem dor ou até formigamento no braço.
Da mesma forma, alterações da mordida, da ATM ou da musculatura cervical podem provocar sintomas “à distância”, incluindo o zumbido.
Portanto, o ouvido nem sempre é o verdadeiro responsável pelo sintoma.
Quais são as características do zumbido relacionado à ATM?
Embora não exista uma regra absoluta, alguns sinais aumentam a suspeita de que o zumbido tenha origem somatossensorial.
Entre eles destacam-se:
Zumbido unilateral
Frequentemente o paciente percebe o zumbido apenas de um lado ou nota que um ouvido é muito mais intenso que o outro, mas não é impossível que possa ter zumbido nos dois lados ou até mesmo percebido na cabeça.
Audiometria normal
Muitos pacientes apresentam audição completamente preservada, apesar da presença do zumbido.
Sensação de ouvido tampado
É comum existir sensação de pressão ou ouvido entupido, mesmo sem estarem gripados ou com o nariz entupido.
Dor na face ou mandíbula
Dor ao mastigar, cansaço da musculatura ou desconforto próximo ao ouvido são sintomas bastante frequentes.
Estalos na ATM
Alguns pacientes relatam cliques ou estalos ao abrir e fechar a boca.
Modulação do zumbido
Essa talvez seja uma das características mais importantes.
O que é modulação do zumbido?
Durante a avaliação clínica, o especialista pode solicitar alguns movimentos específicos.
Por exemplo:
- apertar os dentes;
- abrir bastante a boca;
- movimentar a mandíbula;
- pressionar determinados músculos;
- realizar movimentos do pescoço.
Se o zumbido aumentar, diminuir ou mudar de intensidade durante esses movimentos, existe um forte indício de que ele tenha um componente somatossensorial.
Esse procedimento é conhecido como teste somático.
Entretanto, ele não confirma sozinho o diagnóstico. Por isso, deve sempre ser interpretado juntamente com a história clínica e o exame físico.
Placa de bruxismo e zumbido: ela realmente funciona?
A resposta é sim, mas apenas quando existe indicação adequada.
A placa de bruxismo é um dispositivo confeccionado sob medida pelo dentista.
Seu objetivo principal não é tratar diretamente o zumbido, mas sim controlar os efeitos do bruxismo e reduzir a sobrecarga da ATM.
Quando o zumbido está relacionado a essas alterações, a melhora pode ocorrer como consequência.
Como a placa de bruxismo pode ajudar?
A placa atua de diversas formas.
Redução da sobrecarga muscular
Ela diminui a intensidade da força exercida durante o apertamento dentário.
Consequentemente, ocorre menor tensão da musculatura mastigatória.
Proteção da articulação
Além disso, a placa distribui melhor as cargas sobre a ATM, reduzindo o estresse articular.
Relaxamento muscular
Com menor contração contínua, muitos pacientes apresentam redução da dor facial e da rigidez muscular.
Possível melhora do zumbido
Se essas alterações musculares forem a principal causa do zumbido, é possível observar melhora parcial ou até significativa dos sintomas.
Entretanto, isso não significa que toda pessoa com zumbido deva usar placa.
A placa de bruxismo elimina o zumbido?
Não necessariamente.
Essa é uma expectativa muito comum, porém nem sempre corresponde à realidade.
O zumbido é um sintoma multifatorial.
Além do bruxismo, ele pode estar relacionado a:
- perda auditiva;
- exposição ao ruído;
- doenças metabólicas;
- alterações vasculares;
- medicamentos;
- ansiedade;
- estresse;
- alterações cervicais;
- doenças neurológicas.
Assim, se houver mais de uma causa envolvida, tratar apenas o bruxismo provavelmente não será suficiente.
Por esse motivo, o diagnóstico correto é indispensável antes de iniciar qualquer tratamento.
Existem outros tratamentos além da placa?
Sim.
Dependendo da causa identificada, o tratamento pode envolver diferentes abordagens.
Entre as opções conservadoras destacam-se:
Fisioterapia
A fisioterapia especializada pode melhorar o funcionamento da ATM e reduzir a tensão muscular.
Exercícios terapêuticos
Alongamentos e exercícios específicos ajudam na reabilitação da musculatura mastigatória e cervical.
Medicamentos
Em alguns casos, medicamentos podem ser indicados para controle da dor ou relaxamento muscular.
Técnicas de relaxamento
Como o estresse frequentemente agrava o bruxismo, estratégias de relaxamento também podem contribuir para reduzir os sintomas.
Na maioria dos casos, essas medidas são preferidas inicialmente por serem menos invasivas.
Correção de vícios
Algumas pessoas têm o hábito de roer as unhas, mascar chicletes frequentemente, mordem tampa de caneta ou simplesmente apertam os dentes ao longo do dia, precisam se policiar para corrigir o que chamamos de “hábitos parafuncionais”, já que são movimentos que também acabam forçando o movimento mastigatório.
É possível ter mais de uma causa para o zumbido?
Sim.
Na prática clínica, isso é extremamente comum.
Um paciente pode apresentar, por exemplo:
- perda auditiva em qualquer grau;
- bruxismo;
- tensão cervical;
- ansiedade.
Nesse cenário, tratar apenas um dos fatores pode gerar melhora parcial, mas não eliminar completamente o zumbido.
Por isso, uma investigação detalhada é fundamental para definir um plano terapêutico individualizado.
Quando procurar um médico focado em tratamento de zumbido?
Você deve procurar avaliação médica sempre que apresentar:
- zumbido persistente;
- zumbido unilateral;
- piora progressiva dos sintomas;
- perda auditiva;
- sensação frequente de ouvido tampado;
- dor na mandíbula;
- estalos ao mastigar;
- dor facial;
- suspeita de bruxismo.
Quanto mais cedo a causa for identificada, maiores são as chances de direcionar o tratamento adequado.
Conclusão
A relação entre placa de bruxismo e zumbido é real, porém não ocorre em todos os pacientes. Quando o zumbido está associado ao bruxismo ou à disfunção temporomandibular (DTM), a placa de bruxismo pode reduzir a sobrecarga muscular e articular, contribuindo para a melhora dos sintomas.
Entretanto, o zumbido é uma condição multifatorial. Dessa forma, antes de iniciar qualquer tratamento, é essencial realizar uma investigação clínica completa para identificar todas as possíveis causas envolvidas.
Em outras palavras, a placa de bruxismo não deve ser encarada como um tratamento universal para o zumbido, mas sim como parte de uma abordagem individualizada baseada em diagnóstico preciso.
Referências Bibliográficas:
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