
Pode ter zumbido no ouvido e tontura ao mesmo tempo?
Dra Elaine Miwa Watanabe é médica especialista em otorrinolaringologia pesquisadora em zumbido no ouvido
Sim, é absolutamente possível ter zumbido no ouvido e tontura simultaneamente, e isso ocorre por diversos motivos. Para começar, do ponto de vista anatômico, a via auditiva e a via do equilíbrio (labiríntica) são estruturas vizinhas dentro do ouvido interno. Além disso, ambas compartilham o mesmo nervo, o VIII par craniano, conhecido como nervo vestibulococlear.
Portanto, quando existe alguma alteração nessa região, é relativamente comum que os sintomas auditivos e vestibulares apareçam juntos. No entanto, embora essa associação seja frequente, ela não significa, necessariamente, que todas as pessoas com zumbido terão tontura, ou vice-versa. Ainda assim, entender essa relação é essencial para um diagnóstico correto.
O que é zumbido no ouvido?
Antes de tudo, é importante esclarecer o conceito. Zumbido é a percepção de um som na ausência de um estímulo sonoro externo. Ou seja, a pessoa escuta um barulho que não vem do ambiente, mas sim do próprio sistema auditivo.
Esse som pode se manifestar de várias formas. Por exemplo, pode ser descrito como:
- chiado
- apito
- campainha
- cigarra
- motor
- barulho de vento ou água
Além disso, o zumbido pode ser constante ou intermitente, unilateral ou bilateral, leve ou extremamente incômodo. Justamente por isso, ele não é uma doença em si, mas sim um sintoma, que pode ter diversas causas.
O que é tontura?
Apesar de ser uma queixa muito comum, a tontura é um termo amplo e, muitas vezes, mal compreendido. Frequentemente, as pessoas usam a palavra “labirintite” como sinônimo de tontura, o que tecnicamente não é correto.
De modo geral, tontura refere-se a uma sensação de desorientação espacial, como se o corpo não estivesse bem ajustado ao ambiente. Nesse sentido, é comum o paciente relatar frases como:
- “parece que estou pisando em ovos”
- “tenho a sensação de estar andando para o lado como se tivesse bebido álcool”
- “sinto instabilidade ao caminhar”
- “não tenho firmeza em me equilibrar”
Portanto, tontura não é um diagnóstico de uma doença, mas sim um sintoma que pode ter múltiplas origens, incluindo causas neurológicas, metabólicas, cardiovasculares e, claro, doenças do labirinto.
Vertigem é a mesma coisa que tontura?
Não. Embora no uso popular os termos tontura, vertigem e labirintite sejam frequentemente utilizados como sinônimos, tecnicamente eles são diferentes.
O que é vertigem?
A vertigem é um tipo específico de tontura. Ela se caracteriza pela falsa sensação de movimento ou rotação, mesmo quando o corpo está parado. Em outras palavras, durante a crise, o paciente costuma relatar que:
- “tudo está girando”
- “o ambiente está rodando”
- “parece que estou em um carrossel”
Assim, toda vertigem é uma tontura, mas nem toda tontura é vertigem. Essa diferenciação é fundamental para direcionar corretamente a investigação clínica.
Quem tem zumbido no ouvido também tem labirintite?
Essa é uma dúvida extremamente comum. Entretanto, a resposta é não necessariamente.
Zumbido e labirintite não são sinônimos, assim como tontura e labirintite também não são. Consequentemente, embora possam aparecer juntos, uma condição não implica obrigatoriamente a outra. Da mesma forma, quem apresenta tontura ou vertigem não obrigatoriamente desenvolverá zumbido.
Por outro lado, existe uma condição específica em que a associação entre zumbido, tontura (ou vertigem) e perda auditiva é bastante característica: a Síndrome ou Doença de Ménière.
O que é a Síndrome ou Doença de Ménière?
A Doença de Ménière é caracterizada por crises recorrentes de vertigem, com duração de minutos a horas, associadas a:
- zumbido no ouvido
- perda auditiva flutuante (vai e volta ou pode ser permanente)
- sensação de ouvido tampado
Essa condição ocorre devido a um aumento da pressão de um líquido chamado endolinfa, presente tanto no ducto coclear (relacionado à audição) quanto no labirinto (relacionado ao equilíbrio).
Por isso, a doença pode causar, ao mesmo tempo, sintomas auditivos e vestibulares, explicando a associação frequente entre zumbido e tontura.
Como é o zumbido na Doença de Ménière?
Inicialmente, durante as crises de vertigem, o zumbido e a perda auditiva costumam ser flutuantes. Ou seja, a pessoa pode apresentar:
- sensação de ouvido tampado
- piora do zumbido
- redução temporária da audição
Após a crise, esses sintomas podem melhorar parcial ou totalmente. Inclusive, é possível que uma audiometria mostre perda auditiva em um momento e, posteriormente, apresente resultado normal.
Com o passar do tempo, no entanto, a perda auditiva tende a se tornar mais permanente.
Características da perda auditiva na Doença de Ménière
De maneira geral, a perda auditiva na Doença de Ménière:
- inicia-se em frequências graves e médias
- apresenta flutuação nos estágios iniciais
- a perda vai aumentando progressivamente ao longo dos anos
Uma característica bastante típica é o formato da curva audiométrica em “U” invertido, mas isso não é uma regra. No gráfico da audiometria, essa configuração lembra uma ferradura, o que auxilia o médico no acompanhamento da evolução da doença.
Quem pode desenvolver a Doença de Ménière?
A Doença de Ménière é mais comum em adultos jovens, talvez um pouco mais comum em mulheres, embora também possa ocorrer, mais raramente, em crianças e idosos.
Além disso, ela pode estar associada a outros fatores, como:
- histórico familiar e genética
- enxaqueca (migrânea)
- doenças autoimunes
Outro ponto importante é que a doença pode ser unilateral ou bilateral, e sua apresentação clínica é bastante variável de pessoa para pessoa.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da Doença de Ménière é essencialmente clínico. Ou seja, ele se baseia na história detalhada do paciente e na avaliação médica criteriosa.
Por isso, a consulta com um otorrinolaringologista, médico especializado na saúde auditiva e do equilíbrio, é fundamental. A análise cuidadosa dos sintomas ao longo do tempo é o principal pilar do diagnóstico.
Existem exames para investigar zumbido e tontura?
Sim, existem exames que podem auxiliar na investigação. Entretanto, eles não são obrigatórios em todos os casos, o diagnóstico é essecialmente clínico.
Alguns exames eletrofisiológicos e métodos de imagem podem ajudar nesse raciocínio clínico. Contudo, é importante ressaltar que:
- exames normais não excluem a Doença de Ménière
- exames alterados não confirmam isoladamente o diagnóstico
Portanto, a interpretação dos exames deve sempre ser feita em conjunto com a avaliação clínica.
O que é eletrococleografia?
A eletrococleografia é um exame que pode auxiliar na investigação de hidropsia endolinfática, alteração associada à Doença de Ménière.
Apesar disso, o exame apresenta uma taxa de falsos positivos e falsos negativos. Dessa forma, um resultado normal não exclui a doença, assim como um resultado alterado não é diagnóstico por si só.
Como é o tratamento da Doença de Ménière?
Embora existam medicações que ajudam no controle das crises, o tratamento vai muito além dos remédios. Na verdade, o estilo de vida exerce um papel central no controle da doença.
Entre as medidas mais importantes, destacam-se:
- boa hidratação
- alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras, legumes e grãos
- sono de qualidade
- prática regular de atividade física
Além disso, é fundamental:
- reduzir o estresse
- evitar fumo e álcool
- diminuir o consumo de cafeína, chocolate e outros estimulantes
- controlar o consumo de açúcar
Cuidar da saúde como um todo, incluindo check-ups regulares, faz parte do tratamento.
Como é o tratamento do zumbido no ouvido?
No contexto da Doença de Ménière, além do controle da hidropsia, o tratamento do zumbido depende da evolução da perda auditiva.
Com o tempo, podem ser indicados:
- aparelhos auditivos
- próteses auditivas ancoradas
- implante coclear, em casos selecionados
Portanto, diante de zumbido associado à tontura, a avaliação médica especializada é indispensável. Não ignore os sintomas. Cuidar da sua saúde auditiva é essencial para qualidade de vida. Procure sempre um médico otorrinolaringologista.
Bibliografia:
- Textbook of Tinnitus, 2nd ed.; Schlee, W., Langguth, B., De Ridder, D., Vanneste, S., Kleinjung, T., Moller, A., Eds.; Springer: Cham, Switzerland, 2024
- De Ridder D, Langguth B, Schlee W. Mourning for Silence: Bereavement and Tinnitus—A Perspective. Journal of Clinical Medicine. 2025; 14(7):2218. https://doi.org/10.3390/jcm14072218
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