Dra Elaine Miwa Watanabe

Dra Elaine Miwa Watanabe
Otorrinolaringologista
Zumbido tem tratamento

Protetor auricular piora ou melhora o zumbido?

Dra Elaine Miwa Watanabe é médica especialista em otorrinolaringologia pesquisadora em zumbido no ouvido

O uso de protetor auricular é frequentemente recomendado para proteger a audição em ambientes ruidosos, por isso, é extremamente importante no caso de quem trabalha em fábrica com ruído, usar o protetor auricular. No entanto, quando o assunto é zumbido no ouvido (tinnitus), muitos pacientes ficam em dúvida: o protetor ajuda ou pode piorar a percepção do som? A resposta não é simples. Na verdade, depende do contexto clínico, do tempo de uso e da condição auditiva de cada pessoa.

Ao longo deste artigo, você entenderá quando o protetor auricular é indicado, quando pode ser prejudicial e, principalmente, como utilizá-lo de forma estratégica para não agravar o zumbido.

O que é o zumbido e por que ele pode piorar no silêncio?

O zumbido, também chamado de tinnitus, é a percepção de som sem fonte sonora externa. Ele pode se manifestar como chiado, apito, pressão ou som semelhante a insetos. Em muitos casos, está associado à perda auditiva, mesmo que discreta.

Entretanto, o que muitos pacientes não sabem é que o cérebro tende a aumentar a percepção do zumbido quando há redução dos sons ambientais. Isso ocorre porque o sistema auditivo busca compensar a falta de estímulo sonoro. Consequentemente, quanto mais silêncio absoluto, maior pode ser a percepção do sintoma.

Por isso, embora o protetor auricular reduza o ruído externo, ele também pode aumentar a percepção do zumbido se utilizado de maneira inadequada.

Quando o protetor auricular melhora o zumbido?

Em determinadas situações, o protetor auricular é essencial. Principalmente quando há exposição sonora intensa, como:

  • Ambientes industriais
  • Shows e eventos musicais
  • Uso de máquinas ruidosas
  • Tiros ou explosões
  • Motociclismo frequente

Nesses contextos, o uso do protetor evita piora da perda auditiva induzida por ruído e, consequentemente, previne agravamento do tinnitus.

Além disso, pacientes com hiperacusia — condição em que sons comuns são percebidos como desconfortáveis ou dolorosos — podem se beneficiar do uso pontual em ambientes realmente intensos. Contudo, mesmo nesses casos, a indicação deve ser individualizada. Inclusive, não é recomendável que os pacientes com hipersensibilidades auditivas abusem desse tipo de estratégia, porque no longo prazo pode piorar o quadro.

Portanto, quando o objetivo é proteger a audição contra dano acústico real, o protetor auricular é aliado importante.

Quando o protetor auricular pode piorar o zumbido?

Por outro lado, o uso excessivo pode ser prejudicial. Isso ocorre especialmente quando o paciente passa a utilizar o protetor em ambientes silenciosos ou com ruído normal do dia a dia.

1. Privação auditiva

Quando os sons ambientais são bloqueados de forma contínua, pode ocorrer privação auditiva. Nesse cenário, o cérebro aumenta o “ganho” central, ou seja, amplia a sensibilidade auditiva para compensar a redução de estímulo. Como resultado, o zumbido pode se tornar mais perceptível. Além disso, o mesmo raciocínio é válido com uso de fones com cancelamento de ruído. 

2. Aumento da atenção ao sintoma

Além disso, o silêncio artificial favorece o foco atencional no zumbido. Consequentemente, o paciente percebe o som de forma mais intensa, mesmo que ele não tenha objetivamente piorado.

3. Reforço do comportamento de evitação

Outro ponto importante é o aspecto comportamental. Quando o paciente começa a evitar sons normais do cotidiano, pode desenvolver hipervigilância auditiva. Assim, o sistema nervoso passa a interpretar estímulos comuns como ameaça, perpetuando o ciclo do tinnitus.

Portanto, o uso indiscriminado tende a manter ou intensificar o desconforto.

Protetor auricular e hiperacusia: qual o cuidado?

A hiperacusia exige abordagem ainda mais criteriosa. Embora pareça lógico bloquear sons para reduzir desconforto, o uso contínuo pode piorar a sensibilidade sonora a longo prazo.

Isso acontece porque a exposição controlada a sons ambientais faz parte do processo de dessensibilização. Em outras palavras, o cérebro precisa reaprender que sons cotidianos não representam perigo.

Assim, recomenda-se:

  • Uso apenas em ruídos realmente intensos
  • Evitar uso dentro de casa
  • Evitar dormir com protetor
  • Não utilizar em ambientes de conversa normal

Dessa forma, preserva-se a proteção contra dano auditivo sem reforçar a hipersensibilidade.

Existe diferença entre tipos de protetor?

Sim, e isso também influencia a experiência do paciente.

Protetor de espuma

Reduz significativamente o ruído, porém pode gerar sensação maior de oclusão. Além disso, pode aumentar a percepção de sons internos, como mastigação e passos.

Protetor de silicone moldável

Costuma ser mais confortável, embora também reduza de maneira expressiva o som externo.

Protetores com filtro acústico

Esses modelos atenuam o som de forma mais uniforme, preservando a qualidade sonora. Portanto, são frequentemente mais indicados para músicos ou pessoas que desejam proteção sem isolamento completo.

Contudo, independentemente do tipo, a indicação deve considerar o quadro clínico do paciente. Além disso, o protetor pode sem querer, empurrar a cera para o fundo do conduto auditivo, o que pode no longo prazo, interferir na boa audição.

Quem deve evitar o uso frequente?

Em geral, pacientes com:

  • Zumbido crônico sem exposição a ruído intenso
  • Hiperacusia em fase de tratamento
  • Ansiedade associada ao sintoma
  • Tendência a evitar ambientes sociais

Nesses casos, o uso constante pode reforçar o ciclo de percepção aumentada do tinnitus.

Então, afinal: piora ou melhora?

A resposta correta é: depende do contexto.

O protetor auricular melhora quando protege contra dano acústico real. Entretanto, pode piorar a percepção do zumbido quando utilizado de forma excessiva ou fora de indicação.

Portanto:

  • Use em ambientes realmente ruidosos
  • Não utilize em silêncio ou em casa
  • Evite uso prolongado sem orientação
  • Procure avaliação otorrinolaringológica

Estratégia correta para quem tem zumbido

Ao invés de buscar silêncio absoluto, a abordagem atual recomenda enriquecimento sonoro. Sons ambientais leves, ruído branco ou música suave podem ajudar na habituação ao tinnitus.

Além disso, tratar fatores associados — como perda auditiva, distúrbios do sono e ansiedade — é fundamental. Em alguns casos, o uso de aparelhos auditivos pode reduzir a percepção do zumbido ao restaurar o estímulo sonoro adequado.

Consequentemente, a estratégia é equilibrar proteção auditiva com estímulo sonoro saudável.

Quando procurar avaliação especializada?

Se o zumbido:

  • Surgiu de forma súbita
  • Ser unilateral
  • Está associado à perda auditiva
  • Piorou após exposição sonora
  • Vem acompanhado de tontura ou outros sintomas neurológicos

É essencial buscar avaliação médica. Somente após exame clínico e audiológico é possível orientar corretamente sobre o uso ou não de protetor auricular.

Conclusão

O protetor auricular não é vilão nem solução universal. Ele é uma ferramenta de proteção auditiva que deve ser utilizada SEMPRE EM AMBIENTE RUIDOSO capaz de gerar lesão auditiva. Enquanto protege contra dano acústico, por outro lado, pode também aumentar a percepção do zumbido quando usado indiscriminadamente.

Portanto, o mais importante não é simplesmente usar ou evitar, mas entender quando, como e por quanto tempo utilizar.

Se você tem zumbido e dúvida sobre o uso de protetor auricular, uma avaliação individualizada é o melhor caminho para evitar erros que possam perpetuar o sintoma.

Referências Bibliográficas:

  1. Etiologia. Watanabe E, Mezzalira R. In: Oiticica J, Mezzalira R, Cassou R, Bittar R (EE). Zumbido. Thieme Revinter. 2022. 1ª edição. p51-57.
  1. Textbook of Tinnitus, 2nd ed.; Schlee, W., Langguth, B., De Ridder, D., Vanneste, S., Kleinjung, T., Moller, A., Eds.; Springer: Cham, Switzerland, 2024
  2. De Ridder D, Langguth B, Schlee W. Mourning for Silence: Bereavement and Tinnitus—A Perspective. Journal of Clinical Medicine. 2025; 14(7):2218. https://doi.org/10.3390/jcm14072218
  3. Imagem Pexels
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