Dra Elaine Miwa Watanabe

Dra Elaine Miwa Watanabe
Otorrinolaringologista
Zumbido tem tratamento

Pais com zumbido no ouvido: vou ter também?

Dra Elaine Miwa Watanabe é médica especialista em otorrinolaringologia pesquisadora em zumbido no ouvido

Essa é uma dúvida muito comum no consultório e, de fato, faz todo sentido. Afinal, quando mãe, pai, irmãos ou outros familiares apresentam zumbido, surge naturalmente a preocupação com a possibilidade de herança genética. No entanto, embora exista, sim, uma influência genética em alguns casos, isso não significa automaticamente que todos os descendentes desenvolverão o problema.

Antes de tudo, portanto, para compreender melhor essa relação, é essencial entender o que é o zumbido no ouvido e quais fatores realmente estão envolvidos no seu surgimento.

O que é zumbido no ouvido?

Inicialmente, o zumbido pode ser definido como a percepção de um som no ouvido ou na cabeça, mesmo na ausência de qualquer estímulo sonoro externo. Ou seja, não se trata de um barulho vindo do ambiente, mas de uma percepção gerada pelo próprio sistema auditivo e pelas áreas cerebrais relacionadas à audição.

Além disso, esse som pode variar bastante entre as pessoas. Enquanto alguns relatam um chiado contínuo, outros descrevem apitos, campainhas, sons graves ou até pulsações. Assim, desde já, é importante destacar que o zumbido pode não ter uma causa única, mas sim um sintoma multifatorial. Ou seja, não é uma doença e sim um sintoma que pode ser derivado de várias comorbidades.

É Possível Ter Mais de Um Zumbido na Mesma Pessoa? 

Sim! Uma mesma pessoa pode apresentar mais de um tipo de zumbido, tanto no mesmo ouvido quanto em ouvidos diferentes.

Por exemplo:
👉 Em um ouvido, o paciente pode perceber um apito constante;
👉 No outro, sentir um zumbido tipo “bater de asas de borboleta” ou um som metálico.

Além disso, esses sons podem se manifestar juntos ou em momentos diferentes. Às vezes aparecem de forma contínua, e em outros momentos desaparecem e retornam sem aviso.

Consequentemente, não há uma regra fixa, pois o zumbido é um sintoma multifatorial e altamente individualizado.

Por Que Pode Ter Vários Zumbidos ao mesmo tempo ?

O zumbido pode ter múltiplas causas simultâneas.
Portanto, entre as mais comuns, destacam-se:

Em muitos casos, um único zumbido pode ter mais de uma causa. Por isso, explica-se por que o tratamento deve ser personalizado.
Por outro lado, é comum que diferentes causas possam gerar diferentes tipos de zumbido em uma mesma pessoa. Ademais, mesmo que o zumbido seja idêntico ao de outra pessoa, as causas podem não ser as mesmas. Portanto, o tratamento também não será o mesmo. 

O que os estudos científicos dizem sobre genética e zumbido?

Primeiramente, é fundamental esclarecer que o zumbido é uma condição complexa, influenciada por diversos fatores de risco, como perda auditiva, exposição a ruído, estresse, alterações metabólicas e, em alguns casos, fatores genéticos.

Entretanto, apesar de muitos avanços científicos, a associação direta entre genética e zumbido ainda não é totalmente consensual. De acordo com a literatura internacional, os estudos sugerem que o zumbido pode ser um distúrbio poligênico, ou seja, não depende de um único gene. Pelo contrário, envolve múltiplos genes e diferentes combinações genéticas em cada indivíduo.

Portanto, mesmo que haja histórico familiar, outros fatores ambientais e de saúde continuam tendo um papel determinante.

Quais são as características do zumbido de origem genética?

Segundo dados de estudos populacionais, especialmente em populações europeias, a herdabilidade do zumbido é estimada entre 40% e 68%. Contudo, esse valor não se aplica de forma uniforme a todos os tipos de zumbido.

Na prática, acredita-se que formas específicas, como o zumbido bilateral intenso e altamente incapacitante, apresentem maior componente hereditário. Ainda assim, isso não significa que o zumbido será inevitável, mas sim que pode existir uma predisposição genética que aumenta a vulnerabilidade.

Existe diferença entre homens e mulheres?

Curiosamente, sim. De acordo com alguns estudos, há indícios de que o zumbido de origem genética seja mais frequente em homens jovens, abaixo dos 40 anos. Por outro lado, pesquisas também observaram um índice maior de herdabilidade em mulheres, dependendo da faixa etária e do tipo de zumbido analisado.

Dessa forma, os dados reforçam que a influência genética não é uniforme e pode variar conforme sexo, idade e características clínicas do zumbido.

 

Como Descobrir a Causa do Zumbido?

Finalmente, a única forma de identificar a causa de cada zumbido é através de uma avaliação médica completa, realizada por um especialista em otorrinolaringologia.

Durante a consulta, o médico poderá solicitar:

  • Exames auditivos (como audiometria e emissões otoacústicas)

     

  • Avaliação da articulação da mandíbula (ATM)

     

  • Exames laboratoriais e de imagem, quando necessário

     

Com base nesses resultados, é possível direcionar o tratamento correto para cada tipo de zumbido.

Como os estudos genéticos podem ajudar no tratamento do zumbido?

Certamente, compreender os fatores genéticos envolvidos no zumbido pode abrir novas portas para o tratamento. À medida que a ciência avança, torna-se possível identificar mecanismos biológicos específicos associados à percepção do som fantasma.

Além disso, diferentes estratégias vêm sendo utilizadas para investigar essas bases genéticas, como:

  • estudos de prevalência em diferentes etnias;
  • análises familiares com múltiplos indivíduos acometidos;
  • pesquisas genômicas em larga escala.

Consequentemente, esses achados podem, no futuro, contribuir para terapias mais direcionadas e personalizadas.

Quais genes já foram relacionados ao zumbido?

Atualmente, sabe-se que diversos genes podem estar envolvidos no desenvolvimento do zumbido. Para exemplificar, alguns estudos apontam associações entre o tinnitus e variantes nos genes relacionados a fatores neurotróficos, como:

Fatores neurotróficos e zumbido

  • GDNF (Glial Cell-Derived Neurotrophic Factor)
  • BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor)

Esses fatores desempenham um papel importante na sobrevivência e na plasticidade dos neurônios auditivos. Portanto, alterações nesses genes podem influenciar a forma como o cérebro processa os sons. Ainda assim, é importante ressaltar que mais estudos são necessários antes que se possa falar em tratamentos genéticos específicos.

Podem existir outros fatores hereditários associados ao zumbido?

Sim, e esse ponto é extremamente relevante. Muitas vezes, o fator hereditário não está diretamente ligado ao zumbido em si, mas a doenças familiares que aumentam o risco de perda auditiva e, consequentemente, de zumbido.

Um exemplo clássico é a diabetes mellitus, que apresenta forte tendência familiar. Quando mal controlada, o aumento crônico da glicose no sangue pode ter efeito ototóxico, prejudicando as estruturas do ouvido interno e favorecendo o surgimento do zumbido.

Além disso, condições como alterações vasculares, enxaqueca e distúrbios metabólicos também podem ter componentes hereditários importantes.

Afinal, se meus pais têm zumbido, eu também terei?

Em resumo, ter pais ou familiares com zumbido aumenta a chance, mas não determina o diagnóstico. O zumbido resulta da interação entre genética, ambiente e saúde geral. Portanto, manter hábitos saudáveis, proteger a audição, controlar doenças metabólicas e buscar avaliação precoce são atitudes fundamentais.

Assim, mesmo com histórico familiar, é possível reduzir significativamente o risco e, caso o zumbido surja, tratá-lo de forma adequada e personalizada.

Referências bibliográficas

  1. Textbook of Tinnitus, 2nd ed.; Schlee, W., Langguth, B., De Ridder, D., Vanneste, S., Kleinjung, T., Moller, A., Eds.; Springer: Cham, Switzerland, 2024
  2. Batissoco, A et al. In: Zumbido.Oiticica J, Mezzalira R, Cassou R, Bittar R (EE).  Thieme Revinter. 2022. 1ª edição.
  3. De Ridder D, Langguth B, Schlee W. Mourning for Silence: Bereavement and Tinnitus—A Perspective. Journal of Clinical Medicine. 2025; 14(7):2218. https://doi.org/10.3390/jcm14072218
  4. Imagem Pexels

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